ZERO HORA 05/06/2014 | 08h02
Relembre o envolvimento de barrabravas em brigas nas Copas. Episódios violentos e até fatais já foram registrados no México, na Itália, na França, na Alemanha e na África do Sul
por Mauricio Tonetto

Mais de 500 barra bravas, sem contar os do Boca Juniors e River Plate, são esperados para a Copa do Mundo do BrasilFoto: Noticias Argentinas
Nas últimas décadas, os barrabravas, integrantes de torcidas organizadas argentinas, foram responsáveis por grande parte das agressões em partidas de futebol na Argentina. Desde os anos 1920, conforme a ONG Salvemos al Fútbol (SAF), já causaram mais de 270 mortes. As regalias vividas por seus líderes são dignas de personagens da máfia. A cúpula da Guardia Imperial, do Racing Clube, por exemplo, fez um cruzeiro pelo Brasil no ano passado ao custo de US$ 1,6 mil, por pessoa. De acordo com o jornal argentino La Nación, eles movimentam cerca de 200 mil pesos (R$ 56 mil) mensais em revenda de ingressos e merchandising de artigos oficiais.
Em comum, além de uma vida bancada por esquemas de corrupção e ameaças, um ambiente de impunidade, que favorece a perpetuação de lideranças negativas. De 10 nomes considerados mais perigosos pelo editor do diário esportivo argentino Olé, Gustavo Grabia, 46 anos, hoje o maior especialista em barra bravas no mundo, todos já tiveram algum tipo de problema com a Justiça e mesmo assim continuam convivendo no ambiente do futebol, direta ou indiretamente, e repassando seus reinados a afilhados. Não será surpresa alguma se eles forem flagrados no Brasil. Resta saber fazendo o quê.
Ao todo, eram 120 argentinos, que levaram como uma questão de honra brigar com os hooligans antes da histórica partida contra a Inglaterra, quando Maradona fez um gol de mão. Gustavo Grabia relata que "os hooligans vinham precedidos por uma lenda de terror na Europa. Além dos barras, haviam se somado para a ocasião um grupo de exilados e 50 escoceses. A batalha aconteceu na capital. Dias depois, para a TV de todo o mundo, a barra argentina mostraria as bandeiras britânicas como sinal de vitória. No festejo da vitória da Copa, ao regressar, La Doce encabeçou a caravana que levou a equipe até a Plaza de Mayo. A conjunção entre ambos, barras e Seleção, terminou de ser selada oficialmente dois meses depois."
Com o futebol argentino em alta – a seleção chegaria à final novamente, mas perderia para a Alemanha –, torcedores do Independiente brigaram com os do Boca Juniors, que receberam ajuda da barra do Estudiantes. Outros torcedores do Chacarita, River Plate, Racing, Estudiantes, Rosário Central, Gimnasia de La Plata, Vélez, Banfield, San Martín de Tucumán, Newell's e San Lorenzo se envolveram na confusão. Era a época áurea da barra do Boca Juniors.
FRANÇA 1998
A organizada do Boca Juniors pretendia voltar à hegemonia da violência no futebol argentino, mas o técnico da seleção era Daniel Passarella, e a barra do River Plate – Los Borrachos del Tablón – tinha a preferência. A La Doce precisava levar um número expressivo de fanáticos para fazer frente. De acordo com Gustavo Grabia, "houve um aporte financeiro significativo de torcedores famosos, de gente do clube e também de políticos. E, como sempre, a barra recorreu aos jogadores. A maioria dos barras argentinos revendeu por US$ 500 seu ingresso para turistas. Alguns da segunda linha da La Doce quiseram se passar de vivos e revender o ingresso mas, ao mesmo tempo e com violência, recuperá-lo. Má ideia em uma província francesa cujos negócios ilegais eram dominados pela imigração africana. Tiveram uma briga séria com os africanos."
Desde 1990 que La Doce não tinha uma presença marcante em mundiais. Gustavo Grabia ressalta que "longe das fartas noites do México, Itália e França, os barras do Boca tiveram de se conformar em se estabelecer na República Checa, onde tudo custava 50% menos do que na Alemanha, e viajar apenas para os jogos. Claro que essa mesma ideia tiveram os barras do Independiente, que também foram ao Mundial. Depois da segunda partida, eles cruzaram a fronteira para reduzir gastos. E como Deus os cria e eles se juntam, se encontraram em plena zona quente. Olhada vai, insulto vem, se pegaram em frente à porta do hotel. Foram cinco minutos de batalha crioula em plena República Checa, até que chegou a polícia. Depois de uma detenção de 48 horas, foram todos expulsos do país."
Gustavo Grabia escreve que "em maio, o avião que transportava a seleção levava 23 barras. Foi um escândalo com muitos apoios: eles iam com bumbos financiados pelo sindicato Utedyc, ingressos que vinham do seio da AFA, bandeiras despachadas com o carregamento oficial da Seleção e financiamento de Enrique Antequera, homem forte do Justicialismo. O que se pagou em cash foi US$ 65 mil. Uma fortuna. O escândalo do barratour tomou uma dimensão tal que as autoridades africanas deportaram 48, entre eles 18 do Boca. Os 25 restantes continuaram indo ao Mundial, mas a trégua com as barras de outros clubes terminou quando a Argentina foi eliminada pela Alemanha. Uma hora depois da partida, na Cidade do Cabo, um grupo do Independiente emboscou a outro do Boca para roubar-lhes uma bandeira e a briga terminou com a morte de Luis Forlenza."
Relembre o envolvimento de barrabravas em brigas nas Copas. Episódios violentos e até fatais já foram registrados no México, na Itália, na França, na Alemanha e na África do Sul
por Mauricio Tonetto

Mais de 500 barra bravas, sem contar os do Boca Juniors e River Plate, são esperados para a Copa do Mundo do BrasilFoto: Noticias Argentinas
Nas últimas décadas, os barrabravas, integrantes de torcidas organizadas argentinas, foram responsáveis por grande parte das agressões em partidas de futebol na Argentina. Desde os anos 1920, conforme a ONG Salvemos al Fútbol (SAF), já causaram mais de 270 mortes. As regalias vividas por seus líderes são dignas de personagens da máfia. A cúpula da Guardia Imperial, do Racing Clube, por exemplo, fez um cruzeiro pelo Brasil no ano passado ao custo de US$ 1,6 mil, por pessoa. De acordo com o jornal argentino La Nación, eles movimentam cerca de 200 mil pesos (R$ 56 mil) mensais em revenda de ingressos e merchandising de artigos oficiais.
Em comum, além de uma vida bancada por esquemas de corrupção e ameaças, um ambiente de impunidade, que favorece a perpetuação de lideranças negativas. De 10 nomes considerados mais perigosos pelo editor do diário esportivo argentino Olé, Gustavo Grabia, 46 anos, hoje o maior especialista em barra bravas no mundo, todos já tiveram algum tipo de problema com a Justiça e mesmo assim continuam convivendo no ambiente do futebol, direta ou indiretamente, e repassando seus reinados a afilhados. Não será surpresa alguma se eles forem flagrados no Brasil. Resta saber fazendo o quê.
BRIGAS EM MUNDIAIS
MÉXICO 1986
Ao todo, eram 120 argentinos, que levaram como uma questão de honra brigar com os hooligans antes da histórica partida contra a Inglaterra, quando Maradona fez um gol de mão. Gustavo Grabia relata que "os hooligans vinham precedidos por uma lenda de terror na Europa. Além dos barras, haviam se somado para a ocasião um grupo de exilados e 50 escoceses. A batalha aconteceu na capital. Dias depois, para a TV de todo o mundo, a barra argentina mostraria as bandeiras britânicas como sinal de vitória. No festejo da vitória da Copa, ao regressar, La Doce encabeçou a caravana que levou a equipe até a Plaza de Mayo. A conjunção entre ambos, barras e Seleção, terminou de ser selada oficialmente dois meses depois."

ITÁLIA 1990
A organizada do Boca Juniors pretendia voltar à hegemonia da violência no futebol argentino, mas o técnico da seleção era Daniel Passarella, e a barra do River Plate – Los Borrachos del Tablón – tinha a preferência. A La Doce precisava levar um número expressivo de fanáticos para fazer frente. De acordo com Gustavo Grabia, "houve um aporte financeiro significativo de torcedores famosos, de gente do clube e também de políticos. E, como sempre, a barra recorreu aos jogadores. A maioria dos barras argentinos revendeu por US$ 500 seu ingresso para turistas. Alguns da segunda linha da La Doce quiseram se passar de vivos e revender o ingresso mas, ao mesmo tempo e com violência, recuperá-lo. Má ideia em uma província francesa cujos negócios ilegais eram dominados pela imigração africana. Tiveram uma briga séria com os africanos."
ALEMANHA 2006
AFRICA DO SUL 2010
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