
MANOEL SOARES*
Desde a última quinta-feira acompanho de perto o episódio que envolve a gremista Patrícia. Ao conversar com um de seus irmãos, que pediu para que não revelasse seu nome, vi um homem com os olhos cheios de lágrimas que lamentava o estado de saúde da mãe depois da atitude de Patrícia. Ele conta que ela, desde os 10 anos de idade, sempre foi fanática pelo Grêmio. Diz que, se para provar que era gremista precisasse cortar um dedo da mão, ela cortaria. Os vizinhos mais próximos, a maioria negros, contam que ela é fã do Grupo do Bola e, já de acordo com amigos próximos, ela namorou um jovem negro por quem ainda guarda paixão. No trabalho, de acordo com colegas, era uma moça doce, mas sempre recebia a recomendação de calma ao entrar no estádio. Amigos dizem que ela se transformava completamente. Ninguém que conheci definiu Patrícia como racista, mas como uma menina impulsiva e excessivamente dedicada ao clube de futebol que torcia. Olhando suas redes sociais, vi que o seu desequilíbrio estava sempre conectado ao futebol. Em uma das fotos, vi-a segurando um bicho de pelúcia que parecia ser um macaco com a camisa do Internacional.
Existem racistas aqui em nosso Estado, eu já tive que correr de carros em alta velocidade cheio de jovens me chamando de negro sujo. Quando namorei uma jovem de pele clara, fui apresentado ao seu pai e ele interpretou a escolha dela em namorar um negro como uma provocação. Me lembro como hoje das palavras dele: “Só o que me falta, essa destrambelhada quer escurecer a família”.
A partir das minhas expe- riências pessoais, fiquei intrigado, porque raramente o racista se afeiçoa ou interage com negros como ela. Mas ainda resiste a pergunta: por que Patrícia achou que poderia fazer o que em outros momentos de sua vida não faz?
Patrícia deve pagar pelo seu erro, mas atacar somente ela é secar o chão com a torneira aberta. Não se trata somente de um clube de futebol, mas de uma consciência coletiva. O racismo nos estádio tem mais de 23 anos de idade.
Mas, como negro, posso garantir a vocês que a Patrícia nos fez um favor: mostrou que o racismo precisa ser debatido, pois ele existe e, se encontrar solo fértil, cresce.*JORNALISTA
Nenhum comentário:
Postar um comentário