domingo, 13 de setembro de 2015

FAMÍLIAS DESOLADAS PELA IMPUNIDADE DO HOLIGANISMO



ZERO HORA 13 de setembro de 2015 | N° 18293



PAIXÃO QUE MATA. Famílias desoladas pela impunidade



Quando está sozinha em casa, dona Eva Goularte chora a morte do filho Emerson, crime que completou o oitavo aniversário em junho passado. Assim, escapa das reprimendas da família que a aconselha a seguir em frente. Mas como ir adiante se os suspeitos nem sequer foram a julgamento?

– Meu filho foi morto feito um bicho – diz, para logo depois se corrigir: – Pior do que um bicho.

O caso de Emerson é uma das seis mortes que ainda aguardam julgamento entre as 15 envolvendo o futebol desde o ano 2000.

Os processos julgados são sete, entre condenações e absolvições. E há dois com suspeitos que acabaram mortos.

Apenas um dos processos que aguardam julgamento corre no prazo, o da morte do garoto Maicon Douglas, alvejado em 1º de fevereiro deste ano em meio a um tumulto de torcida em Novo Hamburgo (leia na página 32). Suspeitos, quatro PMs foram denunciados e esperam sentença.

A dor de dona Eva começou no dia 20 de junho de 2007. Ao final do jogo em que o Grêmio perdeu no Olímpico a Libertadores para o Boca Juniors, o colorado Emerson Goularte foi ao centro de Dom Pedrito comprar uma carteira de cigarros. Gremistas reunidos em um bar lamentavam a derrota, e Emerson teria entrado em uma discussão motivada pelo futebol.

A reação foi violenta. Seis torcedores bateram em Emerson. Entre os acusados das agressões estão integrantes de famílias conhecidas na cidade.

Oito anos depois, após uma sequência de recursos jurídicos, o julgamento ainda não foi marcado.

Desde o dia da tragédia, os Goularte recorrem a um controle emocional incomum e afastam qualquer tentação de vingança. Um grupo de amigos de Emerson teve de ser demovido pela família da ideia de fazer justiça com as próprias mãos. Também os vizinhos tiveram de ser acalmados.

– Nada de revidar. Vamos esperar o que vai acontecer – ensinava seu Walter, o pai.

O caso se arrasta nos tribunais, e os acusados circulam pela cidade. As filhas da vítima, Jaíne e Bruna, com frequência deparavam com um dos réus na cidade.

Walter, Eva e Lillian, a irmã mais velha, costumam ser indagados sobre o andamento do caso. Quando contam que ninguém foi punido até hoje, não raro ouvem a cobrança: “E vocês não vão fazer nada?”.

– O julgamento não vai trazer meu irmão de volta, mas tenho certeza de que será um alívio enorme – resume Lillian, que morava com Emerson e, de tão doída, demorou cinco meses para conseguir entrar em seu quarto após a morte.

Fora o caso de Maicon, de 2015, os demais processos se arrastam, em média, em prazo acima de seis anos e meio.

– É normal que as famílias tenham esta sensação de impunidade. Por isso procuramos trabalhar de forma dedicada nestes processos – destaca Sérgio Luiz Rodrigues, da Promotoria de Justiça Criminal de São Leopoldo.

Cansado de esperar por justiça, Osmar Cierco pensou em organizar passeata para comover a comunidade de Gravataí, em pressão pelo julgamento do caso do filho. Daniel foi morto enquanto comemorava o título da Libertadores de 2006 em um trailer de Cachoeirinha.

Os colegas do Direito da Unisinos lotaram ônibus e compareceram ao velório. Hoje formados, os ex-colegas também pressionam pelo andamento do processo. É o caso de João Carlos de Jesus, um dos melhores amigos de Daniel. Tornou-se advogado da família. É com ele que Oscar se informa sobre o processo.

– Imaginem a situação dos pais de uma pessoa abatida covardemente. O mínimo é a briga pela justiça. Mas é preciso aguardar, porque o sistema tem sido assim – desabafa João Carlos.

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