domingo, 13 de setembro de 2015

PAIXÃO QUE MATA



ZERO HORA 13 de setembro de 2015 | N° 18293


ANDRÉ BAIBICH E JONES LOPES DA SILVA

Paixão que mata


Em nome da paixão e da intolerância, a violência tatuou marcas no futebol. Nos últimos 15 anos, desavenças entre torcidas, brigas de grupos organizados e rixas incendiadas pelo ódio provocaram 15 mortes de gaúchos, uma delas em solo catarinense. Embora nos estádios o tumulto pareça frequente, é fora deles que se construiu a média de uma vítima por ano neste século.

Por ter celebrado com barulho demais o título do Inter na Libertadores de 2006, Rodrigo Azambuja foi morto pelo vizinho. Por estar no local onde antes havia confusão, o torcedor de Grêmio e Novo Hamburgo Maicon Douglas de Lima foi baleado pela polícia. Por terem se envolvido em um mundo violento de juras de morte e vinganças entre torcidas organizadas, Gabriel Oliveira e Jeferson Ferreira foram executados.

Zero Hora contatou parentes das vítimas e viu como cada um lida com a dor de uma perda inexplicável. Há quem mantenha tudo como antes – quarto, camisetas, adesivos e pôsteres. Outros preferem se livrar dos objetos e doar o que sobrou. Um simples olhar para a bandeira do clube detona o sofrimento, e o dia a dia torna-se insuportável. Familiares se desmancharam em lágrimas com a lembrança do filho morto. Outros se recusaram a falar, como se afastassem um tormento.

Mãe de Anderson Livi, o único que morreu dentro de um estádio ao ser atingido por bomba, Eli embargou a voz e não quis atender a reportagem. Maria Inês, mãe de Gabriel, morto a tiros em 2008, recorre a antidepressivos.

O perfil das vítimas torna tudo mais trágico. Tinham 27,6 anos na média, que só chega a tanto porque entre elas estão dois homens com 61 e 62 anos. Não fossem eles, a média cairia para 22 anos. A morosidade da Justiça é agravante na dor: existem casos há oito anos aguardando uma sentença.

Zero Hora conta nesta edição e na de segunda-feira como parentes tocam a vida entre a indignação contra a impunidade, o medo de ser o próximo alvo e o controle da sede de vingança.

andre.baibich@zerohora.com.br
jones.silva@zerohora.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário